sexta-feira, 4 de maio de 2012

QUEM CONTA UM CONTO

Olá!
Mais um mês se passou e cá estamos nós para mais um encontro no Quem Conta um Conto; agora com a colaboração de nossa colega, a escritora Lia Zatz.
Acompanhe e pense sobre o que a Lia tem a nos dizer.

Semelhanças e diferenças

Porque escrevo para crianças e jovens, certo dia, um psicólogo amigo, que costuma organizar rodas de conversas em seu consultório, me convidou para participar de uma mesa cujo tema seria “semelhanças e diferenças”.

Sem qualquer pretensão, relato uma das reflexões que fiz ao me preparar para esse papo.

Fazia poucos dias, tinha saído no jornal que um menino de 10 anos, negro, foi levado para a sala de segurança do supermercado Extra, na Penha, acusado de ter roubado, tratado de negrinho sujo e fedido, obrigado a tirar a roupa etc. O menino tinha comprado bolachas e mais alguma coisa e estava com a nota fiscal da compra. Imaginem o que não causa tamanha humilhação em qualquer pessoa, muito mais numa criança.
Sabendo que encontraria pessoas que lidam com crianças e adolescentes, como educadores, terapeutas e também pais, essa notícia me convenceu que seria importante conversar sobre o potencial de cura e de desenvolvimento da autoestima que tem o livro infantil.
Quando comecei a escrever para crianças, na década de 80, o negro era quase um ausente no livro infantil.
Ausente como assunto porque eram poucos os livros que abordavam racismo, preconceito, escravidão. E quando abordavam, a visão ainda era aquela da princesa Isabel que do alto da sua bondade decretou a abolição.
E ausente como pessoa. Num país como o nosso, eram raros os livros em que os personagens fossem ilustrados como negros. Claro que havia exceções: o Joel Rufino dos Santos por exemplo, historiador e autor de muitos livros, inclusive infantis, era uma delas.
A pergunta óbvia era: como a criança negra podia desenvolver sua autoestima e a criança branca vê-la como parceira igual, se a sua imagem não aparece ou aparece de forma negativa?
Foi incrível perceber, quando tive a oportunidade de acompanhar o trabalho de ilustradores de livros meus, como o “normal” era, talvez ainda seja, desenhar os personagens de uma história como brancos. Os ilustradores não são racistas por natureza, é evidente. E bastava dar um toque sobre isso que a ficha caía imediatamente.
Nessa questão, não tem jeito, temos uma herança maldita que precisa ser combatida cotidianamente. Isso está entranhado dentro da gente, sejamos negros ou brancos, ricos ou pobres. Enquanto o negro não conquistar de fato o lugar do semelhante, ele será o diferente e a intolerância vai surgir.
Muita coisa já mudou, mas falta muito ainda a mudar. Há pouco tempo, uma tese de mestrado de uma educadora mostrava situações de racismo acontecendo, atualmente, em escolas de educação infantil.
Na literatura infantil, faltam ainda, mas já são bastantes os livros em que os personagens são negros. Cito apenas um, já antigo, que, para mim, continua sendo um ícone: “Menina bonita do laço de fita”, da Ana Maria Machado. Acabo de recomendá-lo para uma amiga que veio me pedir indicação de livros para conversar com seu neto de quatro anos que, ao encontrar no elevador uma menininha negra, lhe perguntou por que sua pele era daquela cor.
Faço parte de uma geração que acreditava e lutava por suas utopias. Hoje, ter utopias é uma utopia a ser construída.
Como? Não faço a mais mínima idéia. Tenho poucas certezas atualmente. Mas essas poucas são fortes.
A primeira é que não dá para ficar parado. O Hobsbawn, aquele genial historiador inglês, disse em algum dos seus livros a seguinte frase: “... em algum lugar dentro de mim há um fantasminha que sussurra: ‘Não se deve estar acomodado num mundo como o nosso’”.
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Agora, divirta-se com as aventuras do: LELECO, O ILUSTRADOR, criação do associado Fábio Sgroi.


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